O anúncio apareceu na rede social, o preço estava abaixo do mercado, o site parecia legítimo. Você pagou e o produto nunca chegou — ou chegou uma caixa com pedra dentro.

O que dá para fazer depende, em primeiro lugar, de como você pagou.

Se pagou com cartão de crédito

Esta é a melhor posição possível, e muita gente não usa.

Existe o chargeback: o procedimento de contestação da compra junto à administradora do cartão. Você comunica que não recebeu o produto ou que a transação foi fraudulenta, e a operadora estorna o valor, cobrando-o do lojista.

O que fazer:

  1. Ligue para a administradora e conteste formalmente, pedindo protocolo

  2. Formalize por escrito, pelo aplicativo ou por e-mail

  3. Anexe as provas: anúncio, comprovante, tentativas de contato, prazo de entrega descumprido

  4. Se a fatura vencer antes da solução, questione o valor especificamente

Os prazos variam conforme a bandeira e o tipo de contestação, e são contados da compra ou da data prevista de entrega. Quanto antes, melhor.

Se pagou por Pix ou boleto

Aqui a posição é bem mais frágil, porque a transferência partiu de você, com autenticação válida.

Ainda assim, há caminhos:

Mecanismo Especial de Devolução. No Pix, o Banco Central criou ferramenta que permite bloqueio e devolução em caso de fraude. Ela só funciona se o dinheiro ainda estiver na conta destino — por isso comunique o banco imediatamente, pedindo o acionamento com número de protocolo.

Identifique quem recebeu. O comprovante do Pix traz nome e documento, ainda que parcialmente mascarados, de quem recebeu. Golpista costuma usar conta de terceiro, mas essa conta é identificável — e quem recebe valor sem causa legítima tem obrigação de restituir, ainda que alegue apenas ter "emprestado a conta".

Em qualquer caso

Registre boletim de ocorrência. Documenta o fato e a data, e é peça necessária para as etapas seguintes.

Preserve as provas antes que sumam. Site falso sai do ar rápido; perfil de anúncio é apagado. Guarde: print do anúncio com a URL completa, print do site e da página de checkout, comprovante de pagamento, toda a conversa com o vendedor, e-mails de confirmação, e o CNPJ informado, se houver.

Reclame no consumidor.gov.br. Se houver empresa real por trás, resolve com frequência. Se for fantasma, o registro constrói histórico.

Verifique a plataforma onde viu o anúncio. Se a compra foi por marketplace ou por rede social que intermedeia pagamento, pode haver responsabilidade da intermediária — que difere bastante do simples anúncio publicitário.

Como identificar loja falsa antes de pagar

Os sinais que aparecem em quase todos os casos:

  • Preço muito abaixo do mercado. É o principal, e o mais ignorado. Desconto de 70% em produto de alta demanda não existe.

  • Só aceita Pix, ou dá desconto grande para Pix. Justamente porque não há chargeback.

  • CNPJ ausente, ou que não confere na consulta da Receita Federal.

  • Site criado há poucos dias. Dá para consultar a data de registro do domínio.

  • Contato só por WhatsApp, sem endereço nem telefone fixo.

  • Erros de português e imagens copiadas de outras lojas.

  • Pressão de tempo: "últimas unidades", cronômetro na tela.

Duas checagens que levam um minuto: procure o nome da loja mais a palavra reclamação, e consulte o CNPJ na Receita. A maioria dos golpes não sobrevive a isso.

Se a loja é real mas não entregou

Cenário diferente e mais favorável. Aqui vale o Código de Defesa do Consumidor com força total: descumprido o prazo de entrega, você pode exigir o cumprimento, aceitar produto equivalente ou pedir a restituição imediata do valor pago, com correção.

E vale lembrar do direito de arrependimento: em compra fora do estabelecimento, você pode desistir em sete dias contados do recebimento, sem precisar justificar, com devolução integral, inclusive do frete.

Expectativa realista

Recuperar dinheiro de golpe é difícil, e seria desonesto prometer o contrário. A chance concentra-se nas primeiras horas e depende muito da forma de pagamento.

O que aumenta a chance: pagar com cartão, comunicar imediatamente, guardar tudo. O que reduz a quase zero: pagar por Pix a desconhecido, esperar dias para reclamar e não ter print de nada.

Leia também: Seguro prestamista · Carência do plano de saúde · Mínimo existencial