O golpe cresceu muito e a mecânica é sempre parecida: alguém entra em contato dizendo ser advogado, informa que existe um valor a receber em um processo — herança, precatório, revisão de aposentadoria, indenização, FGTS antigo — e diz que falta pagar uma quantia para liberar o dinheiro.

O nome varia: taxa de liberação, custas, honorários, imposto, guia judicial, seguro do saque. A estrutura é a mesma: você paga para receber.

As três verificações que resolvem

1. A inscrição na OAB. Todo advogado tem número de inscrição, e a consulta é pública e gratuita no site do Conselho Federal e nas seccionais estaduais. Pesquise por nome e por número, e confira se a foto corresponde a quem está falando com você.

Detalhes que expõem o golpe: número que não existe, nome que não corresponde ao número, inscrição de outro estado sem qualquer relação com o caso, ou inscrição suspensa ou cancelada.

2. O processo. Se existe processo com valor a receber, ele tem número — no padrão de vinte dígitos usado no Judiciário brasileiro. Com esse número, a consulta é pública nos sites dos tribunais.

Pergunte o número e consulte você mesmo. Golpista costuma inventar número, dar número de processo alheio, ou dizer que "é sigiloso" — e processo de cobrança de valor a receber não é sigiloso para a própria parte.

3. A ligação de volta. Não use o número que ele forneceu. Procure o telefone do escritório de forma independente, ou o telefone da seccional da OAB, e confirme se aquela pessoa atua ali.

Os sinais que aparecem em quase todo caso

  • Cobrança antecipada para liberar valor. Este é o sinal definitivo. Advogado recebe honorários; não existe taxa paga ao advogado para "liberar" dinheiro de processo. Custas judiciais, quando existem, são pagas por guia oficial em nome do juízo, nunca em conta pessoal

  • Pix para pessoa física, ou para CNPJ que não corresponde ao escritório

  • Urgência artificial — "tem que ser hoje", "o prazo vence amanhã", "o valor volta para o Tribunal"

  • Contato que você não iniciou, sobre processo que você não sabia que existia

  • Promessa de valor alto e certo, com data de recebimento

  • Resistência a formalizar contrato ou procuração

  • Documento com erro — logotipo de tribunal em ofício mal formatado, carimbo estranho, número de processo com formato inválido

  • Pedido de dados bancários e senha "para receber o valor"

Por que a vítima acredita

Porque muita gente tem, de fato, valor a receber e não sabe: precatório, ação coletiva antiga, herança não inventariada, FGTS, revisão de benefício. O golpista trabalha exatamente nessa dúvida.

E porque o roteiro imita o real: menciona tribunal, número de processo, nome de banco, usa vocabulário jurídico. Em alguns casos, o golpista tem informações verdadeiras sobre a pessoa, obtidas em vazamento de dados — o que aumenta a credibilidade.

Há uma variação particularmente cruel: o golpista se apresenta como advogado do processo que a pessoa realmente tem, com informações corretas do caso, e pede um valor para "dar andamento".

Se você já pagou

Aja no mesmo dia:

  1. Comunique o banco imediatamente e solicite o mecanismo de devolução de valores em caso de fraude. A chance de recuperação é maior nas primeiras horas, enquanto o dinheiro ainda está na conta de destino

  2. Boletim de ocorrência, com todos os prints, áudios, comprovantes e o número usado no contato

  3. Reúna tudo: conversas completas, documentos que ele enviou, dados da conta que recebeu o valor, gravações

  4. Comunique a OAB se ele usou nome, número ou identidade de advogado real — a seccional apura o uso indevido, e o advogado verdadeiro é vítima também

  5. Avise seu círculo. Golpista que obteve seus dados costuma abordar familiares em seguida, usando o seu nome

Sobre a recuperação do dinheiro: além do mecanismo bancário, é possível discutir a responsabilidade da instituição financeira que abriu a conta usada na fraude, e responsabilizar o autor quando identificado. A identificação é mais frequente do que se imagina, porque a conta de destino aponta para alguém.

Como um escritório de verdade se comporta

Formaliza contrato de honorários por escrito. Pede procuração. Explica o que vai fazer e em que prazo. Não garante resultado. Recebe por conta em nome do escritório, com nota. Não cobra para "liberar" valor de processo. E não aparece do nada anunciando dinheiro fácil.

Se o contato não se parece com isso, a verificação leva cinco minutos — e as três consultas do começo deste texto são todas gratuitas.

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